Análises de Mercado

Main Street vs Wall Street, o próximo capitulo

Com a ausência de catalisadores fundamentais para mexer com o sentimento do mercado, hoje complemento a análise anterior com mais dados sobre a guerra do momento em Wall Street e que promete dar que falar. Para o normal funcionamento dos mercados financeiros a opção de short selling é indispensável, não apenas porque permite estratégias de hedging mas igualmente porque funciona como um árbitro na formação de preços, fomentando a correcção de avaliações claramente fora das margens de razoabilidade, seja no curto prazo, como no longo prazo, restringindo a permanência de empresas no radar dos investidores, que possam não ter viabilidade, assim como força os gestores a procurarem a melhoria constante dos seus negócios, tendo em conta que com o escrutínio existente facilmente os investidores castigam as estratégias pouco competentes, no sentido de preservar e melhorar o valor para o accionista.

 

Contudo e como tudo na vida existem abusos que no short selling já provocaram autênticas derrocadas no mercado, como aconteceu na altura da crise financeira de 2008, especialmente depois de ter sido abolida a regra do uptick, ou seja quando deixou de ser obrigatório que o título tivesse um movimento ascendente para se poder vender. Mas não obstante a incorporação de regras para evitar práticas abusivas o certo é que o short selling foi sempre uma ferramenta utilizada para fins pouco éticos, nomeadamente por parte de grandes fundos que fazendo uso da sua capacidade de alavancagem e de suportar momentos de perda, conseguem empurrar para baixo os títulos de uma empresa que possa estar a atravessar uma fase de maior fragilidade no seu negócio.

 

Dada a particularidade de ser necessário pedir emprestado um titulo para se poder vender antes de o comprar, existe um risco associado à prática do short selling, uma vez que é por isso uma operação com limitações de volume para o short, ao passo que do lado da compra as únicas limitações prendem-se com a disponibilidade dos títulos no mercado e com o poder de investimento de quem compra, provocando um desnível de forças que por vezes origina o denominado short squeeze, tal como tem acontecido nos últimos dias em vários títulos de várias praças financeiras, mas com particular destaque para as acções da GameStop, empresa que estava a ser alvo de uma pressão short intensa por parte de vários hedge funds, e que em muito pouco tempo valorizou mais de 500%, forçando esses shorts a fecharem as posições com elevadas perdas associadas.

 

A novidade nesta subida tão acentuada é que foi fomentada por uma rede de investidores particulares, ou seja Main Street, que devido à conjugação de esforços conseguiu imprimir um movimento ascendente fora do comum, uma espécie de revolução contra Wall Street, ou o grande capital. Contudo agora coloca-se a questão de principio, depois de dezenas de anos em que os grandes players abusaram dos pequenos investidores, com manipulações de mercado, agora os grandes fundos estão a pressionar as empresas de intermediação para impedir a negociação em empresas com elevada percentagem de shorts, tal como já aconteceu com alguns nomes importantes.

 

Ou seja, no final do dia o que terá de se discutir é se é justo impedir que investidores, mesmo que de forma concertada, queiram arriscar investir numa empresa para além da razoabilidade, dado que em teoria o valor acabará por corrigir, sendo pois muito interessante acompanhar este caso que muitos referem como uma caixa de Pandora aberta.

 

 

 

O gráfico de hoje é do S&P500, o time-frame é de 1 hora

 

O principal índice accionista está agora num canal descendente de curto-prazo, com mais algum espaço para corrigir.

Marco Silva

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