Análises de Mercado

FED entra “All in” para salvar a economia

Ainda me lembro dos tempos em que Wall Street vibrava e reagia acentuadamente a “miudezas” como o tamanho da pasta que Alan Greespan levava para a reunião do FED, se fosse muito cheia quereria dizer uma coisa, como corte ou aumento dos juros, uma mala mais vazia era manter, e assim se fizeram dias de volatilidade elevada, isto claro enquanto a imaginação e a necessidade não abriram portas aos bancos centrais para serem os donos e senhores do cenário maior. Com a crise financeira de 2008 o protagonismo destes monstros financeiros foi manifestamente alavancado, com a alteração dos históricos mandatos de acção a incluírem um subentendido, “salvar” a economia, fazendo por linhas tortas o trabalho que os governos não conseguiram ou não quiseram fazer, veremos a que custo para além da politização dos mesmos que levou à perda da sua independência prática.

E se é certo que a economia mundial foi efectivamente salva por medidas absolutamente impensáveis no ínicio do século e que relegaram a mexida nos juros para segundo plano, como por exemplo a compra de dívida privada por parte do BCE, que levaram a balanços grotestos superiores a $4 triliões nos principais bancos centrais, o certo é que a economia e os investidores ficaram viciados na cura, a redução de balanços não ocorreu e como tal estamos com outra crise nas mãos e ainda quase com todas as medidas para resolver a anterior em funcionamento, foi por isso que quando o FED cortou os juros de 1,5% para 0% num curtíssimo espaço de tempo, o sentimento não melhorou, era preciso mais e poucos têm sido os dias em que o mais importante banco central do mundo não tem anunciado medidas para estancar a sangria de optimismo.

Ontem e perante as evidências do que é hoje claro esta epidemia vai provocar na maior economia do mundo, o FED basicamente entrou “all in”. Repetiu as memoráveis palavras de Mario Draghi, quando muitos analistas dizem salvou o Euro, ou seja, “faremos o que for preciso”, o que no caso do banco central norte-americano foi dizer anunciar um programa de quantitative easing sem limite no montante e com muito poucos nas condições, isto porque refere-se inclusive a possibilidade de empréstimos à “Main street”, ou seja aos cidadãos.

Nos próximos meses veremos se a “maior aposta de todos os tempos” será a panaceia para esta crise como a anterior “maior aposta” resolveu temporariamente os problemas da crise financeira, ainda é cedo para se tirar conclusões e muito dificilmente os mercados não irão continuar extremamente voláteis nos próximos dois meses, até porque será a janela para se ter uma percepção mais qualificada sobre o impacto directo da epidemia e do impacto indirecto, ou seja das medidas que os Estados estão a implementar para tentar abrandar a progressão do vírus.

Em relação ao mercado e por muito incrédulo que seja, o dia de ontem não teve grande história, por ser muito similar a uns quantos nas últimas semanas, com os índices a perderem entre -0.27% no Nasdaq e os -3,04% no Dow Jones, sendo que as variações intraday foram de novo muito intensas, o que não é de estranhar visto que esta correcção é oficialmente a mais rápida a retirar -30% ao S&P500, com apenas 22 dias para tal desgaste, menos um do que o registado em 1934.

O gráfico de hoje é do S&P500, o time-frame é Semanal

Aquando da recuperação, a linha azul (média móvel dos 200 períodos), será um provável local de resistência extra.

Marco Silva

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