Análises de Mercado

As mulheres e os mercados

Já lá vai o tempo em que Wall Street era um local exclusivo para homens. Hoje, são inúmeros os exemplos de referência de mulheres que assumem cargos de peso no mundo financeiro: a nível internacional, temos Kristalina Georgieva, como diretora-geral do FMI, e Christine Lagarde, como presidente do BCE, em Portugal, temos Isabel Ucha, como presidente da Euronext. No entanto, e apesar do progresso alcançado, é inequívoco que há ainda um longo caminho por trilhar no sentido da paridade.

Ao longo da história, foram várias as figuras femininas que impactaram o mundo financeiro, lutando para superar a desigualdade de género.

Na viragem do século XVIII para o século XIX, Abigail Adams, esposa de John Adams, presidente dos EUA, destacou-se por ser uma das primeiras mulheres investidoras de que se tem registo e ficou conhecida por advogar uma educação igual para homens e mulheres.

De facto, foi apenas em 1967 que uma mulher, Muriel Siebert, passou a ter assento na Bolsa de Valores de Nova Iorque, 175 anos após a sua fundação. Sendo a única mulher num contexto totalmente dominado por homens, enfrentou uma relutância acentuada.

Nas décadas seguintes, a expansão da economia e a crescente aceitação das ambições profissionais das mulheres impulsionaram mudanças na base de investidores, que se tem vindo a tornar progressivamente mais eclética. Porém, o ambiente encontrado por muitas destas mulheres nem sempre foi o mais acolhedor, sendo, aliás, em muitos casos, hostil, o que ficou evidente quando, na década de 90, várias empresas de Wall Street foram mesmo formalmente processadas por acusações de discriminação de género.

Não obstante, de um modo geral, a transição para o século XXI trouxe consigo desenvolvimentos políticos, jurídicos, económicos e culturais decisivos que permitiram, finalmente, desafiar o status quo, mas ainda há muito a fazer.

O sexismo institucionalizado parece ter sido erradicado, com as empresas a temerem ser alvo de processos judiciais, dos quais advém má publicidade. Contudo, os telhados são de vidro, uma vez que as mulheres continuam a estar sub-representadas em cargos de topo e debatem-se com disparidades salariais. De acordo com o Global Gender Gap Report do Fórum Económico Mundial, embora 46% dos funcionários de serviços financeiros sejam mulheres, num nível executivo, correspondem apenas a 15%.

Por que precisamos de mais mulheres no mundo financeiro …

As mulheres têm vindo a ser mais associadas a profissões que implicam cuidar e os homens acabam por ser encarados como mais aptos para posições de liderança – estereótipos estes perpetuados até à modernidade. Porém, atualmente, um novo argumentário começa a ganhar forma. Se, outrora, as mulheres eram vistas como menos capazes e, como tal, considerava-se que não teriam as características mais adequadas para assumir cargos de relevo no mundo financeiro, depois da crise de 2008, estão agora a ser postas em causa algumas inclinações dos homens investidores e banqueiros, que, movidos pela ambição, agem mais impulsivamente e quase viram escravos do entusiasmo pelo risco.

Do ponto de vista psicológico, as diferenças entre homens e mulheres quando confrontados com a pressão inerente à natureza instável dos mercados são notórias. Experiências realizadas com recurso a softwares de simulação de negociação em tempo real, com o objetivo de comparar os perfis dos homens traders e das mulheres traders, vieram comprovar que as mulheres perdem significativamente menos dinheiro que os homens e que estes tendem a desviar-se das suas estratégias e a ultrapassarem os seus limites de investimento.

Sendo assim, porque é que não há mais mulheres no mundo financeiro e o que podemos fazer para dar a volta a este panorama?

Muitas mulheres sentem-se intimidadas pelo ambiente do mundo financeiro, cuja própria semiologia foi cunhada por homens – por exemplo, o urso e o touro, que são representações clássicas dos mercados, são ambos animais agressivos que denotam virilidade. Estas são barreiras inerentes que, mesmo que inconscientemente, afastam as mulheres deste setor, dificultando o recrutamento e a retenção de talento feminino.

Acredito que os tempos estão, de facto, a mudar e que as mulheres terão a capacidade de ressignificar o universo das finanças e torná-lo mais diverso e inclusivo. Para isso, temos de ir além da superficial batalha dos sexos e desenvolver mecanismos que verdadeiramente endurecem esta questão, chegando às gerações mais jovens e encorajando as mulheres a aprender mais sobre estes temas.

Além disso, hoje, com as novas tecnologias, o acesso aos mercados está ainda mais democratizado, sendo possível negociar a qualquer hora do dia, pelo que, na verdade, esta é uma carreira que pode ser facilmente conciliada, tanto com outras carreiras, como com a vida familiar.

Degrau a degrau, a escada está a ser construída e as oportunidades começam a multiplicar-se: afinal, o mundo financeiro também é para mulheres.

Raquel Freitas, Team Leader na ActivTrades

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